Na noite de ontem tive mais uma grande lição do mundo vinho. Na casa do meu amigo Aldir Manoel, em companhia dos confrades Marcos Fonseca e Welington Andrade, degustamos um vinho com 76 anos de safra. Este vinho foi comprado na Garrafeira Nacional em Portugal pelo amigo. O dia que antecedeu foi de muita expectativa e com varias indagações. Será que o vinho está vivo, avinagrado, oxidado ? necessitaria de decantação ? Qual melhor harmonização ?

Tivemos a idéia de nos comunicar com a vinícola por email. De forma gentil e atenciosa o Sr José Baeta nos respondeu prontamente e nos tirou algumas duvidas :

O vinho necessita de decantação ?

Deverá abrir a garrafa pelo menos 1 hora antes de servir, se puder faça a decantação.

Qual a harmonização perfeita ?

Este vinho acompanha bem qualquer prato de caça bem condimentado, tipo perdiz estufada, ou então, fora da refeição alguns queijos de sabor intenso.

Bem amigos, vamos ao vinho. Ao retirarmos a cápsula, pasmem, o topo da rolha estava em perfeito estado. Iniciamos uma operação cirúrgica para a retirada da rolha com um saca rolhas de laminas. A rolha saiu inteira embora estivesse parcialmente infiltrada.



Mesmo com a indicação do Sr Baeta que foi a da decantação, optamos por acompanhar a evolução do vinho em taça.

O vinho já começou surpreendendo com um visual que não indicava nem de longe a sua idade avançada. O nariz se mostrou com muita complexidade, exalando aromas de frutos secos, madeira envelhecida e alcatrão entremeados por notas balsâmicas. Na boca estava elegante com taninos macios, acidez adequada e com uma persistência média. Ficamos em estado de graça, o vinhos superou todas as nossas expectativas. Espetacular, inteiraço, histórico, único e mais todos adjetivos que se possa dar a um vinho com esta qualidade !!!



Foi Harmonizado com um Cabrito a lá autoridade.


Agora vamos a historia da vinícola e algumas curiosidades :

Neste vinho a casta é 100% Ramisco, 11% álcool – garrafa 650ml

Estes vinhos passam sempre por madeira, os da Viúva Gomes, pelo menos 5 anos.

As melhoes colheitas são: 1931, 1934, 1935, 1965, 1969, 1997, 2000, 2003.

Não se sabe exatamente quando foi engarrafado, pois quando a adega foi adiquirida nos anos 50, as garrafas já estavam lá.


Vinhos da Região Demarcada de Colares, são vinhos provenientes de vinhas instaladas em chão de areia, é necessário seja cavado para que as raízes possam penetrar em solo. Alem disso a parreiras são escoradas para manter-se em pé. Outro diferencial deste vinho e a forte influencia dos ventos marítimos. Com baixa graduação alcoólica, que poderão ser guardados durante largos anos (o mais velho da nossa colecção é de 1931 e está em perfeitas condições). Outro fato a se destacar é que os vinhedos de Colares pela sua geografia diferenciada não foram atacadas pela filoxera.

A cerca de 1902, foi constituída a sociedade Viúva de José Gomes da Silva & Filhos, dirigida pelos seus filhos Bernardino e Ludgero Gomes da Silva.

Em 1920, o edifício, o negócio e marcas foram adquiridos pela Companhia de Vinhos e Azeites de Portugal S.A.R.L., na pessoa de António Soares Franco Júnior, administrador da firma José Maria da Fonseca Sucessores Lda, sociedade para a qual todo o património passou em 1926.

Em 1931, a Adega foi adquirida por Vitor Guedes & Companhia, Sociedade Comercial, cuja designação social foi alterada em 1962 para Vitor Guedes-Indústria e Comércio S.A.R.L., que na década de setenta deixou de comercializar vinhos, em parte devido ao acentuado decréscimo da produção e também devido aos problemas sociais e laborais existentes na altura em Portugal, pelo que toda a existência foi engarrafada, permanecendo em envelhecimento.

Inicialmente os vinhos eram produzidos em Almoçageme saíndo de carroça para a Praia das Maçãs, onde existia um entreposto.Eram carregados em vagonetas que seguiam atreladas ao eléctrico até Sintra, prosseguindo depois para Lisboa de comboio.

Em 1988, a Adega e toda a existência foi comprada pela família Baeta, estabelecida em Sintra no negócio alimentar desde 1898, proprietária de uma Adega em Sintra, tendo a sociedade comercial Jacinto Lopes Baeta, Filhos Lda ficado na posse de toda a existência, iniciando uma nova fase de comercialização dos vinhos, criando e engarrafando novas colheitas de vinhos de Colares, de modo a restabelecer o prestígio da marca Viúva Gomes.

A partir dessa altura começou o período de recuperação das instalações, compra de novos toneis em madeira e recuperação dos existentes, ficando com uma capacidade total de 105.000 litros.

Em 1998, foi criado um espaço na Adega destinado a provas de vinhos e eventos diversos, bem como uma pequena loja para venda de todos os produtos engarrafados e provados na Adega.

A Adega Viúva Gomes faz parte da Rota dos Vinhos de Bucelas, Carcavelos e Colares.

Ainda nesta noite degustamos um Château Potensac 1998 e um Sauternes Chateau Du Levant 2006, grandes vinhos que postarei em separado.