Texto publicado originalmente na coluna Vivendo a Vida | C2 + Prazer & Cia | Jornal A Gazeta

Provar várias safras do mesmo vinho de forma sequencial – a chamada “vertical” – é uma verdadeira aula. Funciona assim: os provadores recebem uma pequena quantidade de cada safra, em taças marcadas – normalmente, em número de cinco vinhos – e costuma ter a presença de um “expert” ou do produtor para orientar a degustação. Nesse momento é possível analisar várias nuances, como o ano de safra e as suas condições climáticas, as técnicas de vinificação e as uvas utilizadas. É também possível avaliar as diferenças de aroma e sabor de uma safra para a outra que são também influenciados pelos anos de guarda.

O resultado de prova normalmente comprova que os vinhos são seres vivos e apresentam alterações em suas características ao longo de sua permanência em garrafa. Com o envelhecimento os tintos perdem cor, tornam-se mais macios e menos ácidos, e ganha complexidade. Para quem quer comprar vinhos para guardar, alguns indicativos de sua longevidade é o teor alcoólico, taninos, acidez e dulçor (muito álcool, muito tanino, boa acidez). Lembrando que somente 10% dos vinhos a venda no mercado tem essas qualidades.

Cabrito Assado, um prato típico do Douro foi a escolha para harmonizar.

Na semana passada participei de mais uma prova vertical no restaurante Lareira Portuguesa com as cinco ultimas safras do Roquette & Cazes, segundo vinho da união entre a família Roquette da Quinta do Crasto, no Douro em Portugal e a família Cazes do Château Lynch-Bages de Bordeaux, na França. A parceria começou em 2002 com o objetivo e produzir vinhos únicos na privilegiada região do Douro, com variedades de uvas autóctones da região, e a expertise de vinificação francesa. 

Em alguns anos, quando a qualidade das melhores barricas é absolutamente excepcional, um XISTO (R$ 700) é declarado. Este vinho tem uma produção muitíssimo limitada, a qual será oferecida apenas a alguns mercados do mundo. Seu nome é uma alusão ao solo xistoso da região.

É importante ficar atento a qualidade dos segundos vinhos, aqueles na hierarquia da vinícola são colocados abaixo dos tops de linha – melhoraram de tal modo que hoje não é exagero dizer que muitos deles são tão bons, e com certeza mais prontos do que os primeiros vinhos. Além disso, estão em uma faixa de preço mais acessível, como o Roquette & Cazes (R$ 130).

Turma de bem com a vida: João Palinha (Qualimpor – Importadora), Alexandre Henriques (Restaurante Gruta De Sto. Antônio – Niterói –RJ), Vanderlei Martins (Supermercado Carone), André Andrès (Jornal Metro), Marcelo Duque (Supermercado Perim), Leonardo Dantas (Qualimpor – ES), Silvestre Tavares (Blog Vivendo a Vida) e Boris Azevedo (Sommelier na Wine4Friends).

Nessa degustação, ficou muito clara a grande capacidade de envelhecimento desse tinto, sua densidade e, acima de tudo, a importância do clima em cada safra. Percebe-se uma fruta madura e limpa, uma textura aveludada e ótima acidez, com alguma alteração conforme o clima de cada ano.

Em todas as safras provadas, o corte deste tinto é Touriga Nacional, com maior percentual, seguida da Tinta Roriz (25%) e a Touriga Franca (15%). Quanto à madeira, sempre são 18 meses de estagio em barricas de carvalho francês (70% novas) provenientes do Château Lynch-Bages, e mais 18 meses em garrafa antes de ir para o mercado. Isso demostra claramente a intenção pela busca de mais frescor, equilíbrio e elegância, tornando-os mais prontos, mesmo jovens.

Avaliação pessoal

Roquette & Cazes 2007

Uma grande safra, mais fria e com menos rendimento, gerou um vinho com grande concentração de frutas e complexidade, mostrando um paladar com grande profundidade, taninos finíssimos, muito longo, concentrado e equilibrado. 97/100 pontos.

Roquette & Cazes 2008

Uma safra diferente, mais fria, porem com excelente amadurecimento das uvas. Na taça mostrou um nariz tímido, mas com um paladar gordo, macio e longo. Encanta pela textura, contudo não demostra potencial para evoluir. 90/100 pontos

Roquette & Cazes 2009

Foi à surpresa do painel por ser considerado um ano apenas médio. Safra muito quente, mas originando alguns vinhos absolutamente espetaculares, prontos para serem degustados como este. Não chega a ser igual a 2007, mas com muita semelhança. Rico em complexidade e elegância. 94/100 pontos.   

Roquette & Cazes 2010

Foi um dos mais apagados do painel, o que reflete uma safra difícil, com período quente e seco seguido de inverno úmido. A qualidade varia bastante. Mas não deixou de exibir a textura cremosa, comum em todas as safras degustadas. 88/100 pontos.

Roquette & Cazes 2011 (safra a venda no mercado)

Uma safra excepcional, considerada um das melhores da região, que rendeu um vinho de muita concentração. Expressivo mesmo na sua juventude, delicioso e encantador, macio, com ótima acidez, promete uma bela história pela frente. Não foi a minha melhor nota, mas encantou.  93+/100 pontos

Provamos também nesse almoço a safra 2013 do Esporão reserva branco e o porto Taylors 40 anos que farei um post exclusivo sobre eles.

Os vinhos são importados pela Qualimpor – www.qualimpor.com.br