Texto publicado originalmente na coluna Vivendo a Vida | Caderno Prazer & Cia | Jornal A Gazeta em 15/11/2013

Nem todos os vinhos ficam melhores com o passar o tempo. Para quem quiser subir um degrau no mundo da bebida e comprar garrafas para guardar e apreciar no futuro, precisa saber que somente os melhores vinhos, e mesmo assim os de boas safras são adequados para o envelhecimento, o restante, cerca de 90%, é destinado ao consumo imediato.

Um vinho com potencial de envelhecimento precisa ter boa concentração de álcool, tanino e acidez, quando jovem. Além disso, é preciso ter uma adega com condições adequadas e muita paciência para que os vinhos descacem o tempo suficiente para que suavizem, se desenvolvam e amadureçam.

Em uma degustação vertical histórica, ocorrida recentemente no Bistrô Carone Gourmet em Vila Velha, pude atestar o grande potencial de guarda do primeiro Cabernet Sauvignon português, o Quinta da Bacalhôa. De toda a família de uvas tintas, a Cabernet Sauvignon é a que mais tem os componentes indicados. Cascas grossas que indicam mais tanino, tende a resultar em vinhos vigorosos e de longa vida.


A prova das safras 1995, 1999, 2003, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010, foi muito bem conduzida por Vasco Penha Garcia (foto acima), enólogo do grupo Bacalhôa. Foi uma degustação vertical, quando varias safras do mesmo vinho são provadas de forma sequencial. São colocados 50 ml de cada safra em taças numeradas. A ideia é sentir as diferenças no aroma e no gosto de uma safra para a outra que são também influenciados pelos anos de guarda. 

A primeira safra foi em 1979, na Peninsula de Setulbal (Terras do Sado), apostando em uma das castas francesas mais famosas do mundo, o Cabernet Sauvignon e o Merlot. Um vinho totalmente vinificado em barricas de carvalho novo com um conceito inovador na enologia portuguesa. O Grupo Bacalhôa dispõe também de adegas nas regiões mais importantes de Portugal: Alentejo, Lisboa, Bairrada, Dão e Douro. Tem uma área de vinhas em produção de cerca de 1.000 hectares, com capacidade total de 20 milhões de litros. Atualmente pertence à Fundação Berardo, liderada patriarca é o Comendador José Berardo. 

 

A seguir os vinhos que foram harmonizados com a chef do Bistrô, Arlete Nunes. Eu quebrei regras, fui de Bacalhau. E adorei!

Quinta da Bacalhôa 1995 – Visual atijolado com halo tendendo ao castanho evidenciando um vinho já evoluído. Foi prejudicado pelos sedimentos em suspenção, mas mesmo assim se destacou pelo equilíbrio. No nariz, boa complexidade de aromas. Na boca, taninos macios, média acidez, complexo e extremamente elegante. Álcool e madeira perfeitamente integrados. Persistência média.

Quinta da Bacalhôa 1999
- Por unanimidade o melhor da noite. Visual atijolado com halo tendendo ao castanho evidenciando um vinho evoluído. Tanto o nariz quanto a boca se mostrou encantador. Nariz com notas de caramelo, bala toffe e uma agradável torrefação. Acredito estar no seu auge. Álcool e madeira integrados. Taninos macios, acidez viva e uma persistência longa.

Quinta da Bacalhôa 2003 – Visual rubi com halo tendendo discretamente ao castanho. Nariz e boca equilibrados com fruta e taninos ainda vivos. Boa acidez e persistência. Álcool e madeira integrados. Complexo e elegante.

Quinta da Bacalhôa 2006 – Visual rubi, nariz e boca equilibrados com fruta e taninos ainda vivos. Caráter ligeiramente herbáceo e presença característica de pimentão verde. Boa acidez e persistência. Álcool e madeira integrados. Complexo e elegante. 

Quinta da Bacalhôa 2007 – Visual rubi profundo. Potente tanto no nariz quanto na boca. Extremamente complexo e elegante. Excelente persistência. Madeira (baunilha) integrada e álcool equilibrado. Um vinho que consegue aliar potencia e elegância. Difícil imaginar que ainda fique melhor, mas tem potencial para evoluir.

Quinta da Bacalhôa 2008 – Visual rubi profundo. Nariz e boca equilibrados com fruta e taninos ainda vivos. Traços adocicados de baunilha (madeira) que não chegaram a incomodar. Taninos marcando presença porém agradáveis. Boa acidez e persistência. Álcool e madeira integrados. Complexo e elegante.

Quinta da bacalhôa 2009 – Visual rubi profundo com reflexos violáceos. Fruta exuberante. Ainda um pouco primário. Ligeiramente tânico. Ótima persistência. Madeira (baunilha) e álcool presentes sem, contudo comprometer seu equilíbrio. Necessita mais tempo de guarda.

Quinta da Bacalhôa 2010 – Muito parecido com a safra anterior, primário. Necessita de guarda.

Vinho à venda no Supermercado Carone, na Ville du Vin e na wine.com.br. Preço médio: R$ 150,00