Texto de André Andrès

Os portugueses trazem em seus corações e mentes sentimentos e pensamentos capazes de atravessar séculos, rasgar o tempo. Seu lirismo é traduzido tanto pelo fado, cantado a olhos fechados pelas noites de Lisboa, quanto pelos versos de Fernando Pessoa. Mas eles não são apenas poéticos: possuem a enorme capacidade de se aventurar por terrenos desconhecidos. Terrenos e mares, para ser mais preciso e justo com a história de Portugal e dos lusitanos, donos da ousadia de iniciar projetos mesmo sem saber exatamente qual será seu resultado. No passado mais distante, isso os levou a descobrir novas terras. No passado mais recente, a produzir grandes vinhos, como ocorre com Domingos Alves de Souza e seus rótulos, exemplos bem acabados da união de uma aventura bem sucedida.

Como se sabe, durante séculos a produção da região do rio Douro, em Portugal, esteve atrelada aos vinhos do Porto, bebidas fortificadas, de grande consumo na Inglaterra, principalmente durante os conflitos entre ingleses e franceses, no século XVIII (Por motivos óbvios, a Inglaterra ficou sem os tintos da França. E os saxões vivem sem paz, mas não vivem sem álcool. Por isso logo fizeram um tratado com Portugal, entregando lã em troca de vinho. Os ingleses sempre foram comerciantes espertos.)

No início da segunda metade do século passado, surgiu um ícone português justamente de onde menos se esperava. A Casa Ferreirinha se aventurou a fazer um tinto seco, de mesa, no Douro. E começava ali a nascer o Barca Velha, durante anos o único rótulo de boa referência, nesse estilo, produzido naquele pedaço de paraíso encravado no norte de Portugal. Mas era uma exceção. Até um grupo de produtores de reunir, há pouco mais de 25 anos, avaliar de maneira muito positiva suas condições climáticas, de solo e suas castas, e decidirem apostar fortemente na produção de vinhos de mesa no Douro. “Nós não tínhamos nada a perder quando comparados às condições de Bordéus”, diz Alves de Souza, sorriso no rosto e usando a palavra portuguesa para definir Bordeaux. Ele estava entre esses produtores.

A existência de boas condições não significa inexistência de dificuldades. Elas surgiram no mercado internacional, por exemplo. Não é muito fácil entender o emaranhado de nomes das castas portuguesas (imagine um inglês tentanto pedir “uma afrouxeiro” ou “uma tinta cão”). As condições do solo, inclinado, também não favorecia a produção em grande escala. E as vinhas eram antigas, muitas tinham mais de 70 anos. Alguns produtores passaram a agir em bloco. Surgiram os Douro Boys (dá para perceber a jogada de marketing já no nome…), autores de excelentes tintos, como o Quinta Vale D. Maria, Quinta Vale do Meão, Nieeport e Quinta do Crasto. Paralelamente, algumas vinícolas continuaram seu trabalho de forma isolada, como na Quinta da Gaivosa, de Domingos Alves de Souza. Todos alcançaram o sucesso.

No caso da Gaivosa, a capacidade de produzir boas castas portuguesas vem de família. Há muitos anos, da quinta saíam uvas para produção dos tintos da Casa Ferreirinha. Ainda hoje, Alves de Souza fornece uvas para a produção da Taylor`s, conhecida pela excelência de seus vinhos fortificados. A partir do final da década de 1980, o engenheiro virou definitivamente um produtor de vinhos. O Vale da Raposa foi o primeiro de uma série de rótulos capazes de colocar Domingos Alves de Souza entre os principais atores do cenário enológico de Portugal, a ponto de ser eleito, por duas vezes, Produtor do Ano pela Revista de Vinhos.

Atualmente, ele trabalha com cinco quintas (da Gaivosa, Vale da Raposa, da Aveleira, das Caldas e da Estação). Não são vinhos baratos, certamente. Mas são caldos capazes de traduzir a riqueza das castas portuguesas e das vinhas velhas, essa misteriosa mescla de uvas antigas, tratadas de modo muito singular pelo produtor e seus companheiros: eles fazem várias combinações dos mostos das parcelas colhidas nas ervideiras, testam várias mesclas e elegem a melhor para colocar o vinho no mercado.

Há, na história de Domingos Alves de Sousa, um resumo do alma e dos pensamentos de Portugal. Há a tradição da produção familiar, que passa por seu pai, seu avô, seus parentes. Há mais: há a coragem de quem se arrisca a se reinventar, de quem sai de seu porto seguro sem saber exatamente em quais portos vai dar. Uma coragem que encontra nos versos de Pessoa, sempre necessários, a sua mais completa tradução: navegar é preciso, viver não é preciso…

Tradição e longevidade

Estes foram os vinhos da degustação organizada pela Decanter e ocorrida na Lareira Portuguesa, em Vitória. A noite foi agradável e peculiar, porque a cidade ainda sofria as consequências de um vendaval e a prova foi iniciada à luz de velas. “Nunca havia participado de nada igual”, comentou Domingos Alves de Souza, antes de inicar a apresentação de rótulos que unem a tradição de quem está no ramo há muitas décadas com a clara capacidade de envelhecimento dos vinhos.

Quinta Vale da Raposa Reserva Douro 2010

Mescla bem feita de Tinta Cão e Touriga Nacional (50% cada). Alves de Souza já produziu um tinto só de Tinta Cão. Dizia que era um dos dois melhores do gênero no mundo – afinal, em Portugal só dois produtores faziam varietal com essa uva. Passa de quatro a cinco meses em barricas já usadas. É um vinho leve, embora sua estrutura garanta uma guarda de alguns anos. Frutas vermelhas são bem notáveis. Graduação alcoolica: 14%. Preço sugerido: R$ 73.

Caldas Reserva 2008

Produzido na Quinta das Caldas, com videiras de 40 anos. Só Touriga Nacional, adormecida por sete meses em barricas de segundo e terceiro usos. A quinta fica numa região mais fresca do Douro, e conta com solo de muito xisto e argila. Um vinho equilibrado, com frutas vermelhas e algo tostado no aroma e taninos bem arredondados. Alcool: 14,5%, Preço sugerido: 124.

Quinta da Gaivosa 2008

Recebeu 92 pontos de Robert Parker. Produzido com uvas provenientes de vinhas velhas (são mais de 30 castas e, como diria Cristiano Van Zeller, “não me pergunte quais, porque não tenho a mínima ideia”), com mais de 30 anos. Passou 15 meses em barricas de carvalho, de primeiro e segundo usos. Está encorpado, denso, muito gostoso, mas certamente vai melhorar muito e chegará ao seu esplendor em 10 ou 12 anos. Álcool: 14,5%. Preço sugerido: R$ 240 (alguns consideraram o vinho de melhor custo-benefício da noite).

Vinha de Lordelo 2007

Produção limitada, 4.500 garrafas, numa mescla de vinhas velhas, mas onde se destacam Tinta Amarela, Sousão e Touriga Nacional. A graduação alcoolica é um pouco mais alta (15,5%). Para muitos, foi o vinho da noite, disputando a preferência com o Abandonado. O mosto adormeceu por 15 meses em barricas novas de carvalho francês. Está muito estruturado e isso é facilmente percebido pelo rubi intenso na taça, pelos aromas presentes (abertos após um tempo de decantação) de algo de fruta negras (ameixa silvestre, por exemplo) e, principalmente, pela presença na boca muito intensa. Um vinho de guarda, sem dúvida alguma.

Abandonado 2009

Um vinho feito com castas de uma vinha literalmente abandonada, de mais de 80 anos de idade, localizada num solo de muito xisto. Durante anos, os enólogos tentaram replantar nessa área as castas que ali não conseguiam mais subsistir. Só as videiras mais antigas (Sousão, Tinta Amarela) prosperavam ali. Em 2004, o mosto proveniente dessas terra abandonada foi guardado na Quinta da Gaivosa. Saiu de lá para conquistar o primeiro lugar na prova “Tintos de Topo do Douro”, da Revista do Vinho, o prêmio de “Melhor Tinto do Ano”, da feira Essência do Vinho 2007, e 95 pontos de Robert Parker, iniciando a longa lista de premiações das safras seguintes. Um vinho complexo, muito encorpado, mas elegante, equlibrado. Passa 18 meses em barrica e mais 12 meses na garrafa antes de chegar ao mercado. Vinho de longa guarda (15 a 20 anos). A produção é de apenas 3 mil garrafas. Álcool: 14,5%. Preço sugerido: R$ 523.

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