Por André Andrès

Como se sabe, os portugueses tiveram, durante muito tempo, uma certa restrição à castas estrangeiras. É verdade, nem sempre essa restrição é respeitada pelos produtores. Da proibição do uso da Syrah, por exemplo, nasceu o Incógnito, excelente vinho Aletejano. Os vetos vieram caindo com o tempo – a ponto de a Bacalhôa, por exemplo, ter se especializado na produção de tintos e brancos feitos com castas francesas. Outros produtores buscam, em muitos vinhos, trilhar o sempre elogioso caminho do equilíbrio. Muitos dos vinhos produzidos pela Ideal Drinks, por exemplo, têm como base uvas francesas que recebem um toque de castas típicas de Portugal ou vice-versa (só como exemplos: o Colinas Branco é feito com Chardonnay e Arinto e o Colinas Tinto combina Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Merlot).

A Ideal Drinks faz parte de um grande grupo empresarial português, o Ideal Tower. Tem na sua “equipa” o enólogo Carlos Lucas, conhecido por aqui por desenvolver o projeto do Paralelo 8 no Vale do São Francisco. A empresa concentra sua produção no norte de Portugal, mais precisamente na área do Dão, da Bairrada e na área de Braga e Monção, onde são produzidos vinhos verdes.

Duas impressões iniciais saltam aos olhos no primeiro contato com a linha (ainda antes de provar os vinhos): 1) a beleza de algumas garrafas, certamente produzidas por um ótimo designer; 2) a proximidade dos nomes expostos nos rótulos com outros, famosos, como são os casos de Quinta da Pedra (nada a ver com Quinta da Pedra Alta) e Principal (nenhuma ligação, óbvio, com o El Principal, ícone chileno). Nome, aliás, parece ser algo a ser resolvido pela empresa. Numa possível busca pela internacionalização, a A Ideal Drinks tem. Como parte de sua marca, a definição “Proudly Produced In Portugal”. Muito longe do sotaque da Terrinha, pois não. A empresa deve ter notado o escorregão, porque no seu site presta um “Testemunho da nossa portugalidade”, algo desnecessário de se fazer se essa portugalidade aflorasce naturalmente.

Mas deixamos as questões empresariais, mercadológicas e até nacionalistas de lado. E vamos aos vinhos, interessantes por vários aspectos, entre eles o sotaque português misturado ao francês. Algo como Amália Rodrigues cantando “La Vie en Rose”…

Espumante Colinas Brut Nature 2007

Produzido na Bairrada, esse espumante é bom exemplo da combinação de castas portuguesas e francesas. Da combinação clássica do champanhe, dele fazem parte a Chardonnay e a Pinot Noir. E no lugar da Pinot Meunier, também muito utilizada, entra a portuguesíssima Arinto. Apresenta tostado leve, toques de frutas e um pérlage bem rico. Os produtores dizem que, se bem conservado, pode ser aberto em até seis anos. Teor alcoólico: 12%.

Quinta da Pedra Branco 2010

Impossível não notar a beleza da apresentação: a garrafa; é muito bonita. Este vinho verde é produzido somente com Alvarinho. É gostoso, mas dá a impressão de ainda ter algo a evoluir. Curioso comentário para um vinho verde, não? Normalmente eles devem ser tomados muito novos, frescos. Pois neste caso, os produtores falam numa longevidade de “até 15 anos” após a colheita { “é um branco de guarda”, diz a ficha técnica). Ou seja, se eles estiverem certos (não há razão para duvidar…), o vinho está ainda novo. De qualquer forma, apresenta uns toques minerais bem interessantes. Teor alcoólico: 13%

Royal Palmeira Branco 2009

Mais uma garrafa bem trabalhada, com o rótulo fazendo uma referência aos famosos azulejos portugueses, e mais um branco para evoluir em garrafa. A curiosidade, aqui, fica por conta da utilização solitária da Loureiro, casta normalmente utilizada em cortes com outras uvas. Tem personalidade mais marcante quando comparado com o Quinta da Pedra. Aromas mais marcantes, paladar mais arredondado. E novamente uma previsão de longa guarda: até 10 anos após a data da colheita. Teor alcoolico> 12,5%

Principal Reserva Branco 2007

Obedecendo a lógica portuguesa, é o “Principal” vinho da casa. Curiosa combinação de Chardonnay e Sauvignon Blanc. O resultado combina a cremosidade da Chardonnay com a acidez da Sauvignon Blanc. Muito gostoso. Tem boa estrutura, capaz de justificar os 10 anos de guarda previstos por seus autores. Teor alcoólico: 12,5%

Terras do Pó Castas 2009

Por motivos óbvios, alguém garantiu ser este o vinho preferido pelo cantor Chorão… Brincadeiras à parte, o tinto produzido na Península de Setúbal é uma mescla de Syrah e Petit Verdot (50% para cada casta). Graduação alcoólica um pouco acentuada: 14,5%. Mas isso não se faz sentir de maneira muito presente na taça, não. Vinho de estrutura simples, fácil de beber. E tem pela frente mais uns três ou quatros anos de vida.

Colinas Tinto 2007

Houve quem o colocasse no mesmo patamar do Principal tinto. Novamente surge o toque português com a combinação francesa. O Colinas une Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Merlot, plantadas na Bairrada. Resultou num vinho um tanto fresco, gostoso, macio na boca. Tanto nos aromas quanto no paladar surgem notas bem definidas de frutas doces, algo de compota. Teor alcoólico relativamente baixo para os padrões atuais: 13%.

Principal Reserva Tinto 2007

Sem trocadilhos, o principal vinho da degustação. Mesma combinação do Colinas (Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Merlot vindas da Bairrada), mas a condução do mosto certamente lhe conferiu mais estrutura. Vinho opulento, com boa presen;ca no nariz e mais marcante na boca, com boa persistência. Também é o vinho de maior longevidade apresentado na prova: até 20 anos. Teor alcolico: 13,5%.

Curta a pagina do Blog Vivendo a Vida no Facebook