Texto de André Andrès – O Exagero

Um dos meus cunhados tinha um hábito pouco elogiável quando se trata de vinhos: tomava sempre o mesmo tinto. Para ser mais exato, era o Casillero del Diablo Cabernet Sauvignon (aliás, bem honesto para a sua faixa de preço, em torno de R$ 30). “Gosto desse. Não quero provar outro, não. Não quero arriscar”, justificava. Bem, tudo no mudo evolui e ele hoje se aventura a provar outros rótulos. Agora, o problema para ele, provavelmente será outro: qual garrafa escolher entre as centenas de ofertas diferentes expostas nas prateleiras de adegas e supermercados. E, pior, com um turbilhão de informações e histórias envolvendo as marcas. O marketing sempre fez parte da história do vinho. Mas as vinícolas estão exagerando. E o marketing está sendo colocado num patamar acima da uva, da produção, da bebida, enfim…

O vinho é um produto de consumo fortemente ligado à sensibilidade, à sofisticação, à cultura. Por isso as histórias sobre o lugar onde ele é produzido, a maneira como a uva é conduzida até se transformar num branco ou tinto delicioso, o terroir e até mesmo detalhes como a escolha do nome fazem parte da construção da imagem do rótulo. Quando esses detalhes todos nos acrescentam conhecimento e têm uma base real, ótimo. É bom saber como funciona, por exemplo, a solera, o método de produção de vinhos fortificados espanhóis. Ou saber como nasceu à obrigatoriedade de se plantar apenas Chardonnay e Pinot Noir na Borgonha. Ou, ainda, discutir se a Shiraz era mesmo a uva do vinho servido na Santa Ceia. E até mesmo conhecer a lenda curiosa sobre a origem do Casillero. O problema, como sempre, é o exagero. E o mercado recebe cada vez mais produtos exóticos: é vinho armazenado no monte onde aconteciam oferendas para deuses indígenas, garrafas deixadas no fundo do mar, nomes baseados numa língua perdida de uma tribo de índios chilenos já extinta e coisas assim.

O efeito de tanta jogada de marketing tende a ser contra produtivo. O consumidor, como aquele meu cunhado, vai acabar ficando ainda mais perdido diante da quantidade de ofertas, além das muitas histórias em torno da garrafa. E, possivelmente, vai cada vez mais recorrer ao porto seguro das vinícolas já conhecidas. Em outras palavras, ele vai olhar, olhar, ouvir as muitas histórias em torno do tinto ou do branco e… acabar escolhendo o Casillero del Diablo Cabernet Sauvignon…

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