Doutor, o vinho faz bem ao coração? Este é um questionamento frequente nos consultórios de cardiologistas em vários países do mundo. Desde que a imprensa divulgou os resultados de um famoso estudo epidemiológico realizado na França e conhecido mundialmente como “paradoxo francês”, houve um enorme interesse dos pacientes e, especialmente da classe médica, em conhecer os reais benefícios do vinho em relação ao coração. Este estudo foi realizado entre 1987 e 1992 (projeto MONICA), e demonstrou uma menor incidência de doença isquêmica do coração (angina pectoris e infarto do miocárdio) na França em relação a outros países, apesar de que uma série de fatores de risco coronariano como o consumo de gordura saturada, nível alto de colesterol sérico, ocorrência de hipertensão arterial sistêmica, índice de massa corporal, tabagismo e sedentarismo não serem menores. O vinho então teria algum efeito protetor? Como?
Vários estudos realizados antes da publicação do “paradoxo francês” já sugeriam um efeito protetor do álcool ao coração quando ingeridos em pequenas doses. No caso do vinho, além do “efeito benéfico”já demonstrados pelo álcool em sua composição, que tem a propriedade de aumentar o HDLc (“bom colesterol”) e, ainda, de inibir a agregação plaquetária (não deixar formar trombos no interior das artérias), existem substâncias conhecidas como polifenóis, como o quecertin e o resveratrol que têm propriedades de prevenir a oxidação do HDLc (ação antioxidante), reduzir a agregação plaquetária (evita formação de trombos) e também efeito vasodilatador. Estudos prospectivos têm demonstrado de modo incontestável os efeitos benéficos do vinho quando consumido de modo moderado. Então, o que significa “consumo moderado” de vinho ou de outros tipos de bebidas alcoólicas? Sabemos que após a água o álcool etílico é o principal componente do vinho e aparece na proporção apresentada abaixo:
água= 85 a 90%
álcoois= 9° GL e 15° GL (o álcool etílico representa 72 a 120 g/l)
A glicerina é, após o álcool etílico, o constituinte do vinho mais importante em proporção: de 5 a 10 g/litro. Ela é um álcool e seu sabor adocicado, quase igual ao da glicose, contribui para “maciez” do vinho.
Para melhor entendimento do que será apresentado à seguir deve-se conhecer que a medida Gay Lussac (oGL= %V) representa quantidade em mililitros de álcool absoluto contida em 100 mililitros de mistura hidro-alcoólica. De acordo com o U.S. Department of Agriculture ficou definido o significado de dose padrão drinque alcoólico que é igual à 14g de álcool.
Isto equivale:
- Vinho (10% a 14%) = 142 ml (1 taça)
- Cerveja (5% álcool) = 280 ml (menos que 1 latinha)
- Destilado (30% a 50% álcool) = 30-50 ml (1 dose)
Ressalta-se que a “tolerância orgânica” à ingestão alcoólica gira em torno de 10 gramas de álcool/hora (taxa de metabolização hepatica).
A literatura médica considera como ingestão moderada a quantidade de 20 a 30 gramas de álcool/dia. Sendo assim, de acordo com o sexo e faixa etária teremos:
Homem: não mais que 2 drinques padrão/dia;
Mulheres: não mais que 1 drinque padrão /dia
Idosos (> 65 anos): não mais que 1 drinque padrão /dia
Quando consideramos ingestão máxima de álcool por dia, significa dizer até 59,2 g de álcool / dia.
Isto equivale:
- Vinho (15% álcool) = 394 ml (meia garrafa)
- Cerveja (5% álcool) = 1184 ml (2 garrafas)
- Destilado (50% álcool) = 118,4 ml (2 doses)
A ingestão abusiva seria acima de 59,2 g de álcool / dia.
Isto equivale:
-Homem: 15 (210 gramas) ou mais drinques padrão/semana= 3 ou mais garrafas de vinho /semana ou 5 ou mais doses padrão em qq. ocasião;
-Mulheres: 8 ou mais drinques padrão/semana= 1,5 ou mais garrafas de vinho /semana ou 4 ou mais doses padrão em qq. ocasião;
-Idosos (> 65 anos): 8 ou mais drinques padrão/semana= 1 ou mais garrafas de vinho /semana ou 4 ou mais doses padrão em qq. ocasião;
Os possíveis mecanismos para explicar os benefícios do vinho à saúde podem ser assim enumerados:
Ação de seus componentes;
Ação do álcool (aumenta HDLc e inibe agregação plaquetária);
Estilo de vida dos consumidores de vinho (fumam menos, dieta mais saudável e prática de atividade física).
Diante do que foi apresentado, é lícito concluir que em doses moderadas o vinho pode realmente trazer algum benefício à saúde daqueles que o consomem. Entretanto, a ingesta de bebida alcoólica não deve nunca ser estimulada, visto que, sabemos de seus efeitos adversos como o alcoolismo, distúrbios de comportamento, arritmias cardíacas, cirrose hepática, cardiomiopatia e outros. Lembrar ainda que vinho não é remédio. Entretanto, se o seu médico não tenha contra-indicado uma taça de vinho para você, brindemos!
Por Rogério Montenegro
Médico cardiologista Capixaba e mestre em fisiologia cardiovascular e um enófilo com grande cultura e experiência
Via Andre Andrés